← Cena Pátria Editorial

7 de julho de 2026

ELO: segurança, tecnologia e soberania nacional

A proposta apresenta o programa ELO: um sistema de cooperação técnica permanente entre unidades especializadas das Forças Armadas e as polícias estaduais para enfrentar o crime organizado, sem subordinar as tropas militares às forças estaduais. Definimos que a integração seria acionada por solicitação formal com critérios rígidos, aliviando a sobrecarga das PMs e criando uma nova estrutura de carreira para os militares. Além do efeito operacional, buscamos estimular pesquisa aplicada, tecnologia nacional de defesa e desenvolvimento econômico regional.

Por Hugo Stiglitz

O Brasil vive hoje uma contradição estrutural em sua política de segurança pública.

Enquanto as organizações criminosas se articulam de maneira nacional, interestadual e até

transnacional, o Estado brasileiro ainda responde de forma fragmentada, com baixa

integração entre as forças federais e estaduais. O crime organizado já opera como uma

rede integrada de logística, inteligência, financiamento e controle territorial. O poder público,

por outro lado, continua dividido entre competências isoladas, disputas institucionais e

limitações operacionais.

Dados do Fórum de Segurança Pública mostram que o Brasil possui hoje um efetivo

policial abaixo do necessário para atender às próprias previsões legais dos estados. Em

2023, o país contava com cerca de 404 mil policiais militares e 95 mil policiais civis,

operando com déficit estimado de aproximadamente 180 mil PMs e 55 mil policiais civis. Ao

mesmo tempo, as polícias estaduais perderam efetivo ao longo da última década,

especialmente as PMs, que tiveram redução de quase 7% no número de agentes.

Enquanto isso, as facções criminosas expandiram sua presença territorial em velocidade

muito superior à capacidade de integração do Estado. Levantamentos recentes apontam

que o PCC possui presença em ao menos 24 estados brasileiros e movimenta bilhões de

reais por ano. O Comando Vermelho já atua em praticamente todo o território nacional, e as

alianças entre grandes facções e grupos regionais já alcançam pelo menos 17 estados.

Diante desse cenário, torna-se necessário discutir uma nova forma de integração

estratégica entre as capacidades operacionais das Forças Armadas e as demandas

concretas da segurança pública estadual. Não se trata de transformar militares em policiais,

nem de substituir as forças estaduais por estruturas federais. Trata-se de reconhecer que o

Estado brasileiro já possui grupamentos altamente especializados, treinados para

operações complexas, mas que frequentemente permanecem afastados de uma

cooperação mais permanente com os desafios concretos enfrentados pelos estados.

Da proposta

O Exército Brasileiro, a Marinha e a Aeronáutica mantêm tropas de elevada capacidade

operacional, como paraquedistas, infantaria de montanha, engenharia de combate,

operações especiais, defesa química, guerra urbana e logística avançada. Essas

capacidades poderiam estar integradas a sistemas permanentes de cooperação técnica,

intercâmbio doutrinário e mobilização excepcional junto às polícias militares, civis e corpos

de bombeiros dos estados.

A proposta consiste na criação de mecanismos institucionais de integração operacional

regionalizada entre grupamentos especializados das Forças Armadas e forças estaduais de

segurança.

Essa integração não significaria subordinação das tropas militares às polícias estaduais,

mas sim a criação de canais permanentes de coordenação, treinamento e apoio tático em

situações específicas. Operações de grande complexidade, crises urbanas, combate a

organizações fortemente armadas, controle de fronteiras, desastres naturais e retomadas

de áreas críticas poderiam contar com estruturas conjuntas previamente treinadas e

organizadas.Experiências internacionais demonstram que esse tipo de integração não é incompatível

com regimes democráticos. Nos Estados Unidos, a National Guard atua como elo entre

defesa territorial e resposta interna em situações de crise, desastres e apoio logístico. Em

países europeus, forças de natureza militar também exercem funções de cooperação

interna em situações excepcionais, especialmente em ações antiterrorismo, controle de

fronteiras e proteção de infraestrutura crítica.

No caso brasileiro, a proposta precisaria ser acompanhada de limites constitucionais claros,

fiscalização institucional e controle civil rigoroso. O objetivo não deve ser a militarização

permanente da segurança pública, mas sim a construção de um sistema nacional de

capacidades integradas, capaz de responder de forma coordenada a ameaças que já

operam em escala nacional.

Do programa

A criação do programa ELO também exigiria uma definição clara sobre quais setores das

Forças Armadas poderiam participar dessa integração operacional e quais deveriam

permanecer exclusivamente voltados à defesa nacional. O objetivo não seria dissolver a

função constitucional das Forças Armadas nem transformar toda sua estrutura em

instrumento de segurança pública, mas criar um núcleo específico de unidades habilitadas

para atuação cooperativa em situações previamente estabelecidas em lei.

Dentro dessa lógica, determinados grupamentos especializados receberiam o selo ELO,

tornando-se aptos para operações conjuntas, treinamento integrado e mobilização

excepcional junto às forças estaduais. Tropas com vocação operacional urbana, logística,

engenharia, mobilidade aérea, inteligência tática e resposta rápida poderiam integrar esse

sistema. Ao mesmo tempo, setores estratégicos voltados diretamente à defesa externa,

proteção territorial, guerra convencional, dissuasão e soberania nacional permaneceriam

integralmente dedicados às suas funções originais, sem qualquer redirecionamento de

finalidade.

Essa divisão é importante para evitar tanto o esvaziamento da capacidade defensiva do

país quanto a percepção de militarização generalizada da segurança pública. O ELO não

seria uma substituição das polícias estaduais, nem uma nova força nacional permanente,

mas um sistema de cooperação técnica e operacional entre estruturas já existentes do

Estado brasileiro.

Dos critérios para mobilização

O funcionamento operacional desse sistema dependeria de critérios rígidos de

acionamento. A criação de operações conjuntas deveria ocorrer apenas mediante

solicitação formal entre os comandos responsáveis pelas unidades envolvidas. Em um

cenário hipotético, o comandante de um batalhão de choque estadual poderia solicitar apoio

operacional a uma unidade federal habilitada pelo ELO presente naquela região. Esse

pedido precisaria apresentar justificativa técnica, definição de objetivos, duração prevista da

operação e enquadramento legal da necessidade excepecional.

Ao mesmo tempo, o comandante da organização federal responsável também responderia

administrativamente pela autorização da operação. Isso cria um modelo de

responsabilidade compartilhada, impedindo tanto mobilizações arbitrárias quanto o uso

político indiscriminado dessas capacidades. Caso as condições estabelecidas em lei não

fossem respeitadas, os responsáveis poderiam responder administrativa e disciplinarmente

pela operação. A intenção é justamente construir um sistema institucionalizado, controlado

e transparente, evitando improvisações ou ampliações indefinidas de competência.

Do trabalho

Além do aspecto operacional, o programa ELO também poderia gerar impactos importantes

na estrutura do trabalho militar e policial brasileiro. Hoje, diversos estados convivem com

jornadas excessivas nas polícias militares, escalas desgastantes e déficit de efetivo.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil possui carência de dezenas de

milhares de policiais militares em relação ao efetivo considerado ideal para a demanda

atual. Em muitos estados, policiais acumulam cargas horárias elevadas, com baixos

períodos de descanso e sobrecarga constante das tropas especializadas.

A existência de unidades integradas de apoio poderia reduzir parte dessa pressão

operacional, especialmente em situações de grande complexidade, crises regionais,

controle de distúrbios, operações em áreas de difícil acesso e ações de longa duração. Isso

permitiria melhor distribuição das missões, ampliação dos períodos de descanso e redução

do desgaste físico e psicológico dos agentes estaduais.

Das carreiras

O projeto também abriria espaço para uma reestruturação da carreira das praças das

Forças Armadas. Atualmente, grande parte dos militares temporários deixa a instituição

após poucos anos de serviço, mesmo após receber treinamento especializado custeado

pelo próprio Estado. O ELO poderia criar um novo modelo de permanência para aqueles

que, após o período obrigatório inicial, fossem aprovados nos cursos especializados e

integrassem unidades habilitadas no sistema.

Esses militares poderiam recuperar a possibilidade de estabilidade funcional vinculada ao

desempenho operacional, formação continuada e permanência nos grupamentos

especializados. Isso reduziria a rotatividade constante de pessoal treinado, preservaria

conhecimento técnico dentro das instituições e ampliaria a atratividade da carreira militar

para jovens qualificados.

Além disso, um novo esquema de progressão de carreira poderia ser estruturado

especificamente para os integrantes do ELO, valorizando capacitação técnica, cursos

operacionais, atuação conjunta e formação interdisciplinar. Em vez de uma lógica baseada

apenas em tempo de serviço, o sistema passaria a incentivar especialização profissional,

preparo contínuo e integração entre defesa e segurança pública.

Das implicações econômicas e científicas

Esse modelo também possui potencial de impacto econômico relevante. A ampliação de

unidades especializadas, centros de treinamento integrados, estruturas logísticas regionais

e programas permanentes de formação poderia gerar milhares de empregos diretos e

indiretos.Isso incluiria desde militares de carreira e temporários até profissionais civis ligados à

manutenção, tecnologia, saúde, engenharia, transporte, inteligência e infraestrutura. Em um

país que enfrenta dificuldades históricas de inserção profissional para jovens,

especialmente fora dos grandes centros econômicos, programas de formação técnica

ligados à defesa e segurança podem também funcionar como instrumentos de

desenvolvimento regional e qualificação profissional.

Mas o impacto econômico do programa ELO não estaria limitado apenas à ampliação do

efetivo ou à criação de novas estruturas operacionais. O projeto também poderia servir

como eixo de estímulo científico, tecnológico e industrial, aproximando universidades

militares, centros de pesquisa federais e indústria nacional das demandas concretas de

defesa e segurança pública.

O Brasil já possui instituições de excelência reconhecidas internacionalmente, como o

Instituto Tecnológico de Aeronáutica e o Instituto Militar de Engenharia, além dos centros

tecnológicos ligados à Marinha, à Aeronáutica e ao Exército. Essas estruturas

frequentemente desenvolvem projetos de alto nível técnico, mas ainda operam de forma

relativamente isolada das necessidades cotidianas das forças de segurança e das

demandas industriais nacionais.

O ELO poderia criar uma conexão permanente entre pesquisa aplicada, operação de campo

e desenvolvimento industrial. Projetos desenvolvidos nas academias militares e centros de

engenharia poderiam ser direcionados para problemas concretos enfrentados pelos

grupamentos operacionais integrados ao programa. Tecnologias de vigilância, drones,

comunicação criptografada, reconhecimento aéreo, inteligência artificial aplicada à análise

de risco, sensores térmicos, sistemas de monitoramento de fronteira, equipamentos de

proteção, softwares de coordenação operacional e veículos especializados poderiam ser

desenvolvidos nacionalmente a partir das necessidades identificadas pelas próprias tropas

em atuação.

Isso teria um impacto importante não apenas na eficiência operacional, mas também na

redução da dependência tecnológica externa. Hoje, grande parte dos equipamentos

avançados utilizados em segurança e defesa depende de importações, licenças

estrangeiras ou manutenção internacional. O fortalecimento de uma cadeia tecnológica

nacional ligada ao ELO poderia estimular empresas brasileiras de engenharia, defesa,

telecomunicações, computação, metalurgia e inteligência digital.

O foco em tecnologia aplicada também pode diminuir a necessidade de enfrentamentos

diretos em operações de risco elevado. O aumento da capacidade de inteligência,

monitoramento remoto, reconhecimento antecipado e coordenação digital permite que

operações sejam conduzidas com maior precisão e menor exposição física tanto para

agentes do Estado quanto para a população civil. Em vez de depender exclusivamente de

aumento de efetivo e confrontos armados, o Estado passaria a investir mais em

superioridade informacional, logística e tecnológica.

Outro ponto importante é o potencial de desenvolvimento de tecnologias de uso dual.

Historicamente, diversos avanços tecnológicos surgiram de pesquisas voltadas à defesa eposteriormente encontraram aplicações civis amplas. Sistemas de navegação,

telecomunicações, materiais resistentes, drones, georreferenciamento, softwares de

segurança e tecnologias médicas possuem exemplos internacionais de origem militar que

posteriormente impulsionaram setores inteiros da economia civil.

O ELO poderia funcionar como catalisador desse tipo de desenvolvimento no Brasil.

Tecnologias inicialmente pensadas para operações de inteligência, logística ou

monitoramento poderiam posteriormente ser utilizadas em áreas como agricultura, proteção

ambiental, transporte, prevenção de desastres naturais, infraestrutura urbana e

telecomunicações. Isso fortaleceria a indústria nacional, estimularia inovação interna e

ampliaria a capacidade do país de produzir tecnologia estratégica própria.

Mais do que um projeto exclusivamente voltado à segurança, o ELO poderia representar

uma política de integração entre defesa, desenvolvimento científico e reindustrialização

tecnológica. Em um cenário internacional cada vez mais marcado pela disputa tecnológica e

pela valorização da soberania industrial, investir em pesquisa aplicada ligada à defesa e à

segurança pública pode significar também investir em autonomia nacional, formação técnica

e crescimento econômico de longo prazo.