A Ditadura Civil-Empresarial-Militar de 1964 deixou uma marca que vai além dos vinte anos de repressão: deixou a ideia de que as Forças Armadas brasileiras sempre foram, e sempre serão, instrumentos do conservadorismo e da direita entreguista. Essa ideia é falsa. E não é por acaso que ela persiste.
Antes do golpe, os quartéis eram um campo de disputa política real. Havia, dentro das Forças Armadas, duas correntes que se enfrentavam abertamente.
De um lado, a ala nacionalista: oficiais que defendiam o monopólio estatal do petróleo, as reformas de base, a soberania econômica e o respeito à Constituição. Seu nome mais expressivo foi o General Newton Estillac Leal, militar de carreira e líder da corrente nacionalista dentro do Exército. Em 1950, ele venceu as eleições para a presidência do Clube Militar com 3.929 votos contra 2.707, encabeçando a chapa nacionalista. Sua posição era clara: o Brasil não devia subordinar sua política externa aos interesses norte-americanos, e as riquezas do subsolo pertenciam ao povo brasileiro. Não era uma posição de minoria. Era a posição majoritária do Clube Militar naquele momento.
Do outro lado estava a ala entreguista: oficiais subservientes ao Bloco Imperialista liderado pelos Estados Unidos, contrários ao monopólio estatal e favoráveis à abertura do país ao capital estrangeiro. Essa corrente operava em duas frentes. A primeira era o Clube Militar, onde associavam os nacionalistas ao comunismo para deslegitimá-los. A segunda era a ESG, a Escola Superior de Guerra, que trabalhava em silêncio dentro do Estado, formando quadros e disseminando a doutrina de segurança nacional de matriz americana. Em 1952, a chapa entreguista reverteu o resultado e venceu as eleições do Clube com 7.288 votos contra 4.489. A diferença não foi só numérica: foi o sinal de que a correlação de forças havia mudado.
O General Newton Estillac Leal já havia sido expulso do Ministério da Guerra por resistir a assinar um acordo militar com os Estados Unidos. Sua derrota no Clube completou o isolamento. Era, no limite, um general sem exército: ocupava posição de comando, mas não conseguia mover a tropa entreguista que o cercava. Quando morreu, em maio de 1955, a corrente nacionalista perdeu seu principal nome e ficou sem rumo diante do que estava sendo preparado.
O Marechal Lott, ministro da Guerra de JK e o último grande representante da tradição legalista, garantiu a posse de Juscelino Kubitschek, presidente eleito e símbolo do desenvolvimentismo brasileiro, em 1955, defendeu a Petrobras e apoiou a Campanha da Legalidade de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e líder trabalhista, em 1961. Mas o terreno já estava sendo minado há anos. A ESG havia feito seu trabalho. Os quadros estavam formados.
Em 1964, os legalistas não perderam por falta de força. Alfred Stepan, cientista político, americano e um dos principais estudiosos das relações entre civis e militares no Brasil, mostrou que, no início do golpe, os legalistas tinham superioridade militar. O que os derrotou foi a velocidade do movimento, as defecções de comandos e uma disputa que vinha sendo vencida dentro das instituições há mais de uma década.
O que veio depois foi uma limpeza. A ala nacionalista foi cassada, presa e expulsa. O que sobrou foi apresentado ao país como se sempre tivesse sido assim. Não foi.
A associação entre as Forças Armadas e setores da direita entreguista no Brasil não é natural. É o produto de expurgos deliberados, de anos de controle doutrinário e de um golpe
dentro das próprias instituições. A ala que venceu em 1964 não representava as Forças Armadas. Representava uma facção. E apagou as outras.
A Juventude Trabalhista reivindica essa memória. A tradição de Estillac Leal e de Lott faz parte da história do trabalhismo brasileiro. O golpe enterrou esse Exército. Nós não vamos deixar que enterrem também a memória dele.
27 de junho de 2026
Lott, Estillac, e o Exército que Apagaram
O texto contesta a ideia de que as Forças Armadas brasileiras sempre estiveram alinhadas à direita entreguista, mostrando que, antes de 1964, os quartéis estavam divididos entre duas correntes. A ala nacionalista, liderada pelo General Estillac Leal, defendia o monopólio estatal do petróleo, as reformas de base e uma política externa independente, e venceu a eleição do Clube Militar em 1950. A ala entreguista, alinhada aos Estados Unidos, atuava no Clube Militar, onde associava os nacionalistas ao comunismo, e na Escola Superior de Guerra, que formava quadros com base na doutrina de segurança nacional, e retomou o Clube em 1952. Com o isolamento e a morte de Estillac Leal em 1955, a tradição legalista passou a ter no Marechal Lott sua principal figura, responsável por garantir a posse de JK e por apoiar a Legalidade em 1961. Apoiado em Alfred Stepan, o texto argumenta que os legalistas tinham superioridade militar no início do golpe, mas foram derrotados pela rapidez do movimento, pelas defecções e por uma disputa interna perdida havia mais de uma década, seguida da cassação e expulsão da ala nacionalista. A JT conclui reivindicando a memória de Estillac Leal e Lott como parte da história do trabalhismo.
Por Juventude Trabalhista