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8 de julho de 2026

O purismo, doença infantil da política brasileira

O texto denuncia o purismo político, que leva militantes de todos os campos a recusarem alianças com quem concordam no essencial, por mágoa, vaidade ou medo de contaminação, e afirma que a JT rejeita essa postura, inclusive em suas próprias fileiras. Recorre a Lênin, que em 1920 criticou os comunistas que recusavam qualquer compromisso tático e lembrou que a história do bolchevismo estava cheia de acordos com outros partidos. No Brasil, o purismo aparece tanto na esquerda que trata o diálogo com conservadores como traição quanto na direita que recusa sentar com comunistas, mesmo em temas de convergência como soberania, indústria e trabalho, e os dois lados acabam favorecendo o rentismo e a dependência externa. O texto reconhece que há resistência dentro da JT ao diálogo com figuras como Jones Manoel ou com perfis conservadores, e responde com a própria tradição trabalhista: Vargas, Jango e Brizola construíram alianças amplas, e foi a convergência de projeto, e não de ideologia, que gerou a CLT, a Petrobras e a base industrial do país. Conclui com Pasqualini, apresentando o trabalhismo como uma doutrina de síntese, feita para reunir.

Por Juventude Trabalhista

Há uma doença que atravessa a política brasileira de ponta a ponta, e que não escolhe lado. Ela se manifesta quando militantes recusam construir com quem discordam em alguma coisa, ainda que concordem no essencial. Recusam por mágoa, por vaidade de campo, por medo de parecerem contaminados pela companhia errada. Trocam o resultado pela pureza. Preferem a consciência tranquila do isolamento à responsabilidade incômoda da construção.

A Juventude Trabalhista nomeia essa doença e a rejeita, inclusive quando ela aparece entre nós.

Em 1920, Lênin escreveu contra os comunistas que recusavam qualquer aliança, qualquer participação parlamentar, qualquer compromisso tático, em nome da radicalidade. Chamou essa postura de doença infantil: a confusão entre firmeza de princípios e recusa a agir no mundo real. Lênin lembrava que toda a história do bolchevismo estava cheia de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive burgueses, e que rejeitar isso por princípio era uma tese pueril, difícil de levar a sério. O diagnóstico veio da esquerda revolucionária, mas descreve um vício que hoje se espalha por todos os campos. Registramos a ironia: setores que reverenciam essa obra são, muitas vezes, os primeiros a recusar na prática o que ela ensina.

O purismo tem duas faces no Brasil de hoje, e ambas paralisam.

De um lado, há quem se diga de esquerda e trate como traição qualquer diálogo com pessoas de direita ou com conservadores. Quem trave a construção de uma pauta nacional porque um dos interlocutores votou errado, pensa errado sobre costumes ou frequenta o campo adversário. De outro, há quem se diga de direita e sinta repulsa em sentar à mesa com comunistas, socialistas ou figuras da esquerda organizada, ainda que o tema em discussão seja soberania, indústria ou trabalho, pontos em que há convergência real. Os dois lados sofrem do mesmo mal. Os dois confundem higiene ideológica com seriedade política. E os dois entregam ao adversário comum, o rentismo e a dependência externa, a vantagem de um campo nacional dividido por implicância.

Esse vício existe dentro da própria Juventude Trabalhista, e seria desonesto fingir o contrário. Há entre nós quem torça o nariz para a ideia de dialogar com um comunista como Jones Manoel. Há também quem sinta o mesmo desconforto diante de perfis conservadores. A esses membros, de um lado e de outro, a JT responde com a própria tradição que diz defender.

O trabalhismo brasileiro nunca foi um clube de puros. Getúlio Vargas governou costurando forças que se detestavam. João Goulart buscou base parlamentar onde ela existisse, não onde seria confortável. Brizola, no exílio e na volta, dialogou com quem fosse preciso para reconstruir um campo nacional-popular. A Aliança que sustentou o desenvolvimentismo brasileiro reuniu industriais, trabalhadores, militares nacionalistas e intelectuais que jamais teriam assinado o mesmo manifesto de princípios. Foi assim que se construiu a CLT, a Petrobras, a base industrial do país. Não por afinidade de espectro. Por convergência de projeto.

A doutrina trabalhista dá o critério. Pasqualini ensinava que a justiça social se realiza dando a cada um a oportunidade efetiva de desenvolver seu potencial, e que o trabalhismo se define por se contrapor tanto ao egoísmo capitalista quanto ao coletivismo que apaga o indivíduo. É uma doutrina de síntese, feita para reunir, não para excomungar. Quem a transforma em senha de pertencimento, em muro para separar os dignos dos indignos, trai o que ela tem de mais próprio.