Em 20 de janeiro de 1971, seis homens bateram à porta da casa de Rubens Beyrodt Paiva e o levaram preso. Rubens foi conduzido ao DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi torturado e assassinado por agentes da ditadura militar. Seu corpo foi ocultado pelo Estado e jamais foi encontrado.
Décadas depois, Antônio Fernando Hughes, ex-tenente do Exército, foi identificado como um dos responsáveis diretos por sua morte. Quando essa confirmação veio a público, Hughes já havia falecido, sem nunca ter sido responsabilizado ou julgado. Assim como ele, inúmeros outros agentes do regime, que torturaram, sequestraram e mataram em nome do Estado, foram beneficiados pela Lei de anistia, viveram na impunidade e morreram de velhice, sem qualquer punição.
Essa impunidade foi um padrão do encerramento do regime. A ditadura militar, esgotada politicamente e economicamente, encerrou-se nos seus próprios termos. Garantiu, antes de tudo, que seus algozes não fossem investigados, acusados ou julgados. O perdão veio antes mesmo da acusação.
A chamada redemocratização foi conduzida por aqueles que prosperaram sob a ditadura.
A constituição cidadã conta com assinaturas de quem foi colocado no congresso por ditadores.
O primeiro presidente da redemocratização foi aliado dos setores antidemocráticos.
A ditadura que perdurou por vinte e um anos no Brasil não terminou por compromisso com a democracia, mas por caducidade histórica.
Não acabou pela indignação com a barbárie, mas por encontrar novas formas de se reorganizar.
Não foi derrotada pelo povo, mas dissolvida pelos próprios ditadores.
Fala-se pouco da ditadura e das feridas abertas e assim deixadas por ela.
A ditadura perseguiu e matou opositores políticos.
A ditadura perseguiu e matou jornalistas e atacou a liberdade de imprensa.
A ditadura corroeu as instituições brasileiras e institucionalizou a corrupção.
A ditadura destruiu um projeto nacional-desenvolvimentista e entregou o país ao capital estrangeiro.
A ditadura invadiu os territórios dos povos originários, promovendo um genocídio indígena.
A ditadura permitiu que a seca matasse o povo nordestino para preservar os interesses dos grandes proprietários de terra.
Quem teme o resgate da memória da ditadura tem interesse em preservá-la.
Quem teme a memória quer defendê-la sem constrangimento.
No Brasil, a ausência de memória não é um acidente: é um projeto.