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14 de abril de 2026

De Vargas a Lula: qual é o limite ético do personalismo político?

O polêmico desfile da Acadêmicos de Niterói com enredo em homenagem ao presidente Lula neste carnaval recoloca um dilema antigo e caro ao trabalhismo brasileiro, tantas vezes acusado de cultuar lideranças: até onde é legítimo transformar a figura de um governante vivo em eixo simbólico de uma narrativa coletiva?

Por Juventude Trabalhista

O polêmico desfile da Acadêmicos de Niterói com enredo em homenagem ao presidente Lula neste carnaval recoloca um dilema antigo e caro ao trabalhismo brasileiro, tantas vezes acusado de cultuar lideranças:

até onde é legítimo transformar a figura de um governante vivo em eixo simbólico de uma narrativa coletiva?

Não se trata de proibir homenagens. Tampouco de fingir que uma política afetiva como a brasileira e, mais amplamente, latino-cristã, possa existir sem personalismo.

A questão não é eliminar o personalismo.
É compreender seu limite ético.

Em nossa tradição, a política nunca foi puramente abstrata. O vínculo entre povo e liderança é mediado por rostos, vozes e biografias. O catolicismo popular, o caudilhismo, o populismo e o próprio trabalhismo consolidaram uma cultura política em que a autoridade se encarna. Não há aqui a ficção de uma esfera pública completamente impessoal.

O personalismo é constitutivo: organiza afetos, cria lealdades e dá inteligibilidade histórica a projetos coletivos.

Reconhecer isso, porém, não implica aceitar qualquer forma de exaltação individual. Há uma diferença decisiva entre o personalismo que serve a um projeto nacional e o personalismo que serve à facção.

O caso de Getúlio Vargas ilustra essa ambivalência. Vargas foi cultuado em vida, e isso é amplamente documentado. Houve propaganda estatal, construção simbólica deliberada, linguagem paternal. Mas esse culto cívico estava inserido em um processo de reorganização social e estatal. O líder aparecia como mediador de conflitos e símbolo de fundação de um programa de transformação. O personalismo era orientado como instrumento de coesão e direção histórica.

Isso não absolve o fenômeno de críticas. Ajuda, porém, a compreender que, em determinadas circunstâncias, a personalização do poder foi percebida como meio de integração nacional. A ética política associada ao nosso republicanismo histórico não condenava a centralidade do líder em si. O que se exigia era que a autoridade pessoal estivesse subordinada à função de Estado, à ordem coletiva e ao progresso material.

O governante podia ser exaltado enquanto encarnação de um projeto, não enquanto encarnação do próprio poder.

Mais do que isso, a exaltação só encontra sua legitimidade maior quando feita aos vivos, mas sempre aos mortos. É só quando uma personalidade se torna histórica que sua memória se torna objeto de legado cívico.

É nesse ponto que o desfile atual suscita polêmica.

Quando a homenagem a um líder vivo se transforma em narrativa unilateral que assumidamente reforça antagonismos do momento e legitima a propaganda de um campo contra outro, o personalismo deixa de ser integrador e nacional e passa a ser narcísico, faccional, prolongando uma lógica de campanha permanente.

Culturas políticas latinas e cristãs convivem com a figura do líder carismático. Elas não operam apenas por abstrações institucionais. No entanto, essas mesmas tradições também precisam uma ética de responsabilidade: a liderança é tolerada enquanto serve à comunidade e se submete a uma finalidade superior.

Quando a figura do líder se torna fim em si mesma, quando a propaganda individual substitui o projeto coletivo, o personalismo perde o sentido.

Então sim, quando se orienta por um projeto coletivo claro, reforça a coesão social em vez de fragmentá-la, subordina a figura do líder à continuidade institucional e evita transformar a cultura popular em extensão de campanhas faccionais permanentes, aceitamos o personalismo.

Mas quando substitui o programa pela imagem, confunde Estado e indivíduo, converte manifestações culturais em instrumentos de propaganda de curto prazo e incentiva antagonismos como método de sobrevivência política, se torna um câncer.

Não é preciso aderir ao purismo antipersonalista, mas também não podemos aceitar a banalização do personalismo como técnica de mobilização permanente e divisão contínua do país.

O desafio é outro: recuperar um personalismo subordinado ao projeto nacional, não à disputa imediata; à construção, não ao marketing; à unidade, não à segmentação.

Em sociedades como a nossa, o líder continuará sendo figura central. A questão não é abolir essa centralidade, e sim discipliná-la.

Porque onde o personalismo sobrepõe o projeto, não há nacionalismo possível.