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16 de fevereiro de 2026

Feminicídio e Capitalismo Tardio: A Violência que o Sistema Potencializa

A Juventude Trabalhista se posiciona: não haverá projeto nacional soberano sem a emancipação plena das mulheres brasileiras. E não haverá emancipação sem enfrentarmos as raízes estruturais da violência — o sistema que nos atomiza, que destrói laços comunitários, que transforma seres humanos em concorrentes e que potencializa todas as formas de opressão.

Por Juventude Trabalhista

A cada semana, uma nova tragédia choca o país. O que há de comum entre elas? Mulheres vítimas de violência, tortura e morte nas mãos daqueles que deveriam amá-las, protegê-las e respeitá-las. O pior é constatar que a sociedade já normalizou e banalizou a violência, o feminicídio e todo tipo de crueldade que ocorre diariamente com inúmeras mulheres Brasil afora.

Vivemos o momento de maiores taxas de feminicídio do país desde o início da série histórica. Coincidentemente, testemunhamos também a maior onda de crescimento de movimentos autointitulados "redpill" e masculinistas, que invertem completamente a lógica da realidade: proclamam que homens são vítimas, perseguidos por uma sociedade que supostamente reprime a masculinidade em favor de um exagerado empoderamento feminino e do que chamam de "cultura woke".

Mas quando foi determinada essa suposta hierarquia de gênero? Quem estabeleceu que o feminino é inferior e deve ser submetido à tutela masculina? Desde a infância, a sociedade ensina aos meninos que "homem não chora" e que qualquer traço associado ao feminino os torna menos homens, dignos de linchamento social, constrangimento e discriminação — exemplos a não serem seguidos. Isso não deveria nos dizer algo?

Como podem homens jovens, no auge de sua vitalidade, se autointitularem vítimas numa sociedade que registra recordes de violência contra mulheres e meninas? Há claramente uma inversão de valores. E isso vem frequentemente acompanhado de um crescente fundamentalismo religioso que instrumentaliza e distorce escrituras para institucionalizar a cultura da submissão feminina.

Os números revelam a cruel realidade de classe e gênero: quem mais morre são as mulheres pobres, negras, periféricas, trabalhadoras. São as empregadas domésticas, as operárias, as mães solo que sustentam famílias inteiras com salários precarizados. São aquelas que Lélia Gonzalez nos ensinou a enxergar quando falava da intersecção entre raça, classe e gênero na formação do Brasil.

De 39 presidentes brasileiros, apenas uma foi mulher. A Suprema Corte é composta por 10 homens e apenas uma mulher. O parlamento conta com apenas 18% de mulheres, embora o eleitorado feminino seja ligeiramente superior ao masculino. A maioria dos espaços de poder — na esfera pública, privada e religiosa — permanece ocupada por homens. Como, então, eles seriam as vítimas?

Será que o fenômeno do "jovem incel", que se diz heteronormativo mas desconta nas mulheres suas frustrações socioeconômicas, profissionais e sua incapacidade de construir relacionamentos, não é sintoma de algo maior? Um reflexo da sociedade do cansaço que o capitalismo tardio nos impõe, do avanço de políticas neoliberais — inclusive por governos ditos progressistas —, da precarização do trabalho, da falta de perspectivas, da estagnação do poder de compra e do colapso da educação?

Já é consenso que a sociedade está doente, que o sistema econômico que vivemos é insustentável. Quando a civilização colapsa, regredimos à lei da selva, onde todos são concorrentes e os mais fortes se sobrepõem aos vulneráveis. Num estágio em que não existe mais senso de comunidade, em que todos se tornaram pessoas-empresa lutando para sobreviver na selva capitalista, esse diagnóstico social, somado à cultura do machismo institucional, ao avanço do fundamentalismo religioso e a séculos de exploração, silenciamento e objetificação da mulher — questões que até hoje não foram integralmente superadas —, nos explica este deplorável quadro.

A pergunta que fica não é apenas de indignação individual, mas de compreensão estrutural e mobilização coletiva: como enfrentaremos um problema que é ao mesmo tempo cultural, econômico e político? Como construiremos uma sociedade que rompa não apenas com o machismo, mas com o modelo de competição selvagem que nos adoece e nos desumaniza?

A Juventude Trabalhista se posiciona: não haverá projeto nacional soberano sem a emancipação plena das mulheres brasileiras. E não haverá emancipação sem enfrentarmos as raízes estruturais da violência — o sistema que nos atomiza, que destrói laços comunitários, que transforma seres humanos em concorrentes e que potencializa todas as formas de opressão.