Patrono

Rubens Paiva

Rubens Beyrodt Paiva, foi um engenheiro civil e político brasileiro filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro. Foi deputado federal pelo estado de São Paulo entre 1963 e 1964, quando teve o mandato cassado pelo Ato Institucional nº 1.

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Por Matheus Domingos · 5 min

Rubens Beyrodt Paiva, foi um engenheiro civil e político brasileiro filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro. Foi deputado federal pelo estado de São Paulo entre 1963 e 1964, quando teve o mandato cassado pelo Ato Institucional nº 1. Rubens foi sequestrado, torturado e assassinado por militares durante a ditadura, o seu corpo nunca foi encontrado.

Vida Pessoal

Rubens Paiva nasceu em Santos, no estado de São Paulo, no dia 26 de dezembro de 1929. Filho de Jaime Almeida Paiva e Aracy Beyrodt Paiva, Rubens estudou em sua juventude no Colégio Santista, no Colégio Arquidiocesano e no Colégio São Bento e se formou em engenharia civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Rubens foi do movimento estudantil, sendo vice-presidente da União Estadual de Estudantes de São Paulo. Nacionalista, Rubens participou da campanha "O petróleo é nosso".

Seu pai, Jaime Paiva, era advogado e dono de uma das maiores fazendas do Vale do Ribeira, a Fazenda Caraitá, além de ter sido prefeito da cidade de Eldorado Paulista em duas ocasiões. Rubens não mantinha boa relação com seu pai, estando entre os motivos, o alinhamento político e o perfil autoritário de Jaime, sendo conhecido como “coronel”.

Em 1952, casou-se com Maria Lucrecia Eunice Facciola, – que adicionou o Paiva, após o casamento – formada em letras na Universidade Mackenzie. Rubens e Eunice tiveram cinco filhos, sendo eles: Marcelo Rubens Paiva, Vera Paiva, Maria Eliana Paiva, Ana Lúcia Paiva e Maria Beatriz Paiva.

Seu filho Marcelo, publicou em 2015 o livro “Ainda estou aqui”, que conta os últimos momentos de Rubens em vida e toda a trajetória e busca pela verdade de sua família após seu desaparecimento.

Em 2024 o livro foi adaptado ao cinema pelo diretor Walter Salles, com o ator Selton Mello interpretando Rubens. O filme recebeu diversas premiações nacionais e internacionais, entre elas, o Óscar de melhor filme estrangeiro.

Vida Política e Golpe Militar

Rubens era filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro, onde disputou e venceu as eleições de 1962 para deputado federal pelo estado de São Paulo.

Em seu mandato, Rubens participou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava institutos privados de pesquisa como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), institutos estes comandados por empresários brasileiros e estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, além de terem colaboração da Agência de Inteligência dos EUA, a CIA. Esses institutos serviam para criar e promover vasto conteúdo de propaganda de oposição ao governo do presidente João Goulart, divulgando a falsa acusação de uma ameaça comunista que pairava sobre seu governo, uma deturpação das propostas de reformas de base defendidas por Goulart e pelo trabalhismo.

Em 1° de abril de 1964, enquanto o golpe estava em execução, Rubens fez um acalorado discurso na Rádio Nacional, criticando o governo de São Paulo por apoiar os golpistas e convocando a população para uma greve geral em prol da legalidade.

No mesmo dia se instaurou então o regime militar, e com ele a instituição do AI 1 de 9 de abril que previa:

[...] os Comandantes-em-Chefe, que editam o presente Ato, poderão suspender os direitos políticos pelo prazo de dez (10) anos e cassar mandatos legislativos federais, estaduais e municipais, excluída a apreciação judicial desses atos.

Na lista dos 100 primeiros a perderem seus direitos políticos, estava Rubens Paiva, que perdeu seu mandato de deputado federal por São Paulo. Além de Rubens, estavam nessa lista: João Goulart, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Rubens exilou-se na Iugoslávia e na França, após nove meses de exílio, quando, em viagem até a Argentina, desceu do avião que fazia escala no Rio de Janeiro, e pegou outro para São Paulo indo se encontrar com sua família e retornando a morar no Brasil desde então.

Prisão, desaparecimento, tortura e morte.

Em 20 de Janeiro de 1971, seis homens que diziam ser da Aeronáutica brasileira invadiram a residência de Rubens no Rio de Janeiro, armados com metralhadoras para prendê-lo. Rubens então saiu dirigindo seu próprio carro escoltado por estes homens e foi levado para o quartel do comando da III Zona Aérea, onde foi espancado por militares. Rubens foi então levado ao Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do estado do Rio, que funcionava no Quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, onde foi interrogado e torturado pelo Agente Antônio Fernandes Hughes.

Passava pouco da uma hora da madrugada do dia seguinte quando Amílcar Lobo, aspirante a oficial e médico do DOI, foi acordado em casa e levado para o quartel. Subiu à carceragem do segundo andar e lá, numa das celas do fundo do corredor, encontrou um homem nu, deitado, com os olhos fechados. Tinha todo o corpo marcado de pancadas e o abdômen enrijecido, clássico sintoma de hemorragia interna. “Rubens Paiva”, murmurou duas vezes o preso, abrindo os olhos. Lobo aconselhou que ele fosse levado para um hospital, mas o major que o acompanhou à cela achou melhor retê-lo: “Ele é muito quente, doutor, se dá com gente do Chile”. Na manhã seguinte o médico foi informado de que Rubens Paiva morrera. Pretendiam esquartejá-lo. (GASPARI)

Após a morte de Rubens Paiva sob tortura de Antônio Hughes no DOI-CODI do Rio de Janeiro, militares organizaram uma operação forjada para encobrir o crime, conhecida como “farsa de resgate”. Por ordem do major Francisco Demiurgo, o então capitão Raymundo Ronaldo Campos, acompanhado dos sargentos Jacy e Jurandyr Ochsendorf, levou um carro ao Alto da Boa Vista, disparou contra o veículo com pistolas 9 mm e o incendiou, simulando que militantes armados haviam interceptado o transporte e libertado o preso. Registrado oficialmente como um ataque de guerrilheiros, o episódio visava criar uma narrativa que desvinculasse o Estado da responsabilidade pela morte de Paiva, mas décadas depois investigações e depoimentos comprovaram que a encenação fazia parte de uma prática sistemática de ocultação de crimes da ditadura militar.

O corpo de Rubens foi jogado no mar e nunca foi encontrado.

Até hoje ninguém foi condenado pela sua morte.

Referências (41)
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